opoemado

O Poema do Semelhante

Elisa Lucinda

O Deus da parecença
que nos costura em igualdade,
que nos papel-carboniza em sentimento,
que nos pluraliza,
que nos banaliza por baixo e por dentro,
foi este Deus que deu
destino aos meus versos.
Foi ele quem arrancou deles
a roupa de indivíduo
ainda maior, embora mais justa.
Me assusta e acalma
ser portadora de várias almas.
De um só som, comum eco,
ser reverberante,
espelho, semelhante.
Ser a boca,
ser a dona da palavra sem dono
de tanto dono que tem.
Esse Deus sabe que alguém é apenas
o singular da palavra multidão.
É mundão,
todo mundo beija,
todo mundo almeja,
todo mundo deseja,
todo mundo chora,
alguns por dentro,
alguns por fora.
Alguém sempre chega,
alguém sempre demora.
O Deus que cuida do não-desperdício dos poetas
deu-me esta festa
de similitude.
Bateu-me no peito do meu amigo,
encostou-me a ele
em atitude de verso, beijo e umbigos,
extirpou de mim o exclusivo:
a solidão da bravura,
a solidão do medo,
a solidão da usura,
a solidão da coragem,
a solidão da bobagem,
a solidão da virtude, a solidão da viagem,
a solidão do erro,
a solidão do sexo,
a solidão do zelo,
a solidão do nexo.
O Deus soprador de carmas
deu de eu ser parecida,
Aparecida,
santa,
puta,
criança.
Deu de me fazer diferente
pra que provasse da alegria
de ser igual a toda gente.
Esse Deus, deu coletivo
ao meu particular
sem eu nem reclamar.
Foi Ele, o Deus da par-essência
o Deus da essência par.
Não fosse a inteligência da semelhança,
seria só o meu amor,
seria só a minha dor,
bobinha e sem bonança.
Seria sozinha minha esperança.

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